Uma viagem de trabalho a Shelton, no estado de Connecticut, marcava o início de uma enorme aventura.
Um Uber requintado e perfumado, com um condutor simpático e prestável, levou-me da empresa, em Shelton, até à Estação de Comboios de Stamford.
Tinha como destino Nova Iorque, a cidade dos sonhos!
Estação de Comboios de Stamford
Imaginava aqueles edifícios imponentes, luminosos, tentava colorir esses pensamentos com sons e odores... e juntava a tudo isso as saudades do marido com quem me iria encontrar mais tarde.
Os meus pensamentos foram interrompidos de forma abrupta pela discussão de uma mulher grávida ao telefone, com o presumível pai do filho que carregava na barriga.
Os revisores repreenderam-na pelo tom de voz com que falava, dizendo que incomodava as pessoas que a rodeavam. Já antes a tinham repreendido por colocar os pés em cima do sofá da frente, sob o pretexto de ter dores na barriga.
O que inicialmente me despertou a atenção sob a forma de alguma solidariedade, transformou-se em irritação quando decidiu jogar um jogo no telemóvel com o som no máximo, onde a cada 15 segundos disparava em alguma coisa que tornava aquilo ainda mais insuportável.
"Isto está mesmo a acontecer?" - perguntei ao colega com quem partilhava a viagem.
Não podia crer.
Mais uma vez, a revisora que mais parecia um homem pela forma como se apresentava, abordou-a dizendo que o bilhete que ela tinha não era válido para aquele comboio.
Confirmou-se que não.
Sofri pela rapariga, grávida, sozinha, ao anoitecer, sem dinheiro e pelo que descrevia, sem tecto onde se recolher caso não conseguisse chegar ao seu destino, segundo ela, Bronx.
Bronx
Senti as lágrimas escorrerem-me dos olhos quando uma menina sentada ao meu lado, a quem eu não daria mais de 16 anos, lhe explicou como haveria de apanhar o comboio correcto na próxima estação, juntamente com 5 dólares. Estabeleceu inclusivamente ligações com locais onde ela poderia pedir ajuda. Foi aí que percebi que tudo aquilo poderia ser uma enorme fachada para angariar dinheiro. Acalmou-se, disse que não precisaria de mais nada porque considerava que o melhor a fazer era sair e procurar um hospital contando que estava com muitas dores. Dores essas que pareceram ter desaparecido num instante quando se levantou para seguir outro rumo.
A menina que a ajudou, certamente muito jovem, tinha já dois filhos e era mãe solteira, o que parecia ser perfeitamente natural por ali.
Pude finalmente recostar-me no banco e apreciar a paisagem ao anoitecer.
Sorri ao recordar-me que o telemóvel da pobre mulher era melhor do que o meu e que a folha onde ela pediu para anotar as indicações trazia já outros trajectos escritos por outras pessoas, que da mesma forma tentaram ajudá-la.
Fica a dúvida! E naquele mundo imenso de vidas cruzadas e realidades diferentes, tudo pode acontecer!
E voltei a pensar no meu marido, que deveria já estar a caminho do apartamento onde aguardaria a minha chegada e de onde partiríamos para a grande aventura: conhecer Nova Iorque!!!


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