sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

2. A caminho da cidade dos sonhos

Tinha passado uma semana desde o meu primeiro contacto com solo americano.
Uma viagem de trabalho a Shelton, no estado de Connecticut, marcava o início de uma enorme aventura.
Um Uber requintado e perfumado, com um condutor simpático e prestável, levou-me da empresa, em Shelton, até à Estação de Comboios de Stamford.
Tinha como destino Nova Iorque, a cidade dos sonhos!

Estação de Comboios de Stamford

A ansiedade consumia-me por dentro.
Imaginava aqueles edifícios imponentes, luminosos, tentava colorir esses pensamentos com sons e odores... e juntava a tudo isso as saudades do marido com quem me iria encontrar mais tarde.
Os meus pensamentos foram interrompidos de forma abrupta pela discussão de uma mulher grávida ao telefone, com o presumível pai do filho que carregava na barriga.
Os revisores repreenderam-na pelo tom de voz com que falava, dizendo que incomodava as pessoas que a rodeavam. Já antes a tinham repreendido por colocar os pés em cima do sofá da frente, sob o pretexto de ter dores na barriga.
O que inicialmente me despertou a atenção sob a forma de alguma solidariedade, transformou-se em irritação quando decidiu jogar um jogo no telemóvel com o som no máximo, onde a cada 15 segundos disparava em alguma coisa que tornava aquilo ainda mais insuportável.
"Isto está mesmo a acontecer?" - perguntei ao colega com quem partilhava a viagem.
Não podia crer.
Mais uma vez, a revisora que mais parecia um homem pela forma como se apresentava, abordou-a dizendo que o bilhete que ela tinha não era válido para aquele comboio.
Confirmou-se que não.
Sofri pela rapariga, grávida, sozinha, ao anoitecer, sem dinheiro e pelo que descrevia, sem tecto onde se recolher caso não conseguisse chegar ao seu destino, segundo ela, Bronx.

Bronx

Num pequeno espaço de tempo, fui avassalada por diferentes emoções, algumas delas contraditórias.
Senti as lágrimas escorrerem-me dos olhos quando uma menina sentada ao meu lado, a quem eu não daria mais de 16 anos, lhe explicou como haveria de apanhar o comboio correcto na próxima estação, juntamente com 5 dólares. Estabeleceu inclusivamente ligações com locais onde ela poderia pedir ajuda. Foi aí que percebi que tudo aquilo poderia ser uma enorme fachada para angariar dinheiro. Acalmou-se, disse que não precisaria de mais nada porque considerava que o melhor a fazer era sair e procurar um hospital contando que estava com muitas dores. Dores essas que pareceram ter desaparecido num instante quando se levantou para seguir outro rumo.
A menina que a ajudou, certamente muito jovem, tinha já dois filhos e era mãe solteira, o que parecia ser perfeitamente natural por ali.
Pude finalmente recostar-me no banco e apreciar a paisagem ao anoitecer.
Sorri ao recordar-me que o telemóvel da pobre mulher era melhor do que o meu e que a folha onde ela pediu para anotar as indicações trazia já outros trajectos escritos por outras pessoas, que da mesma forma tentaram ajudá-la.
Fica a dúvida! E naquele mundo imenso de vidas cruzadas e realidades diferentes, tudo pode acontecer!
E voltei a pensar no meu marido, que deveria já estar a caminho do apartamento onde aguardaria a minha chegada e de onde partiríamos para a grande aventura: conhecer Nova Iorque!!!

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